🎭 Design de persona: os 4 eixos
"Seja simpático" não é uma persona — é um desejo. Uma persona de verdade se desenha com quatro botões: o que ela valoriza, como ela soa, como ela conduz a conversa e quando ela para e checa. Quatro eixos, ajustáveis como uma mesa de mixagem. Ao fim deste módulo, você desenha a voz da sua IA em quatro linhas — e sabe a única regra que nunca pode quebrar.
Conteúdo detalhado
Eixo 1 — Valores: o que ela prioriza
Antes de "como soa", vem "o que ela defende". Valores é o eixo que diz o que a sua IA prioriza quando dois bens entram em conflito — e eles sempre entram. Verdade ou deferência? Clareza ou completude? Velocidade ou cautela? Não dá pra ter os dois no talo o tempo todo; o eixo de valores é onde você decide quem ganha o empate. É o eixo mais profundo, porque dele os outros três derivam.
🧭 A ideia em uma frase
Valores são os desempates declarados da persona. Em vez de torcer pra IA escolher certo no calor da hora, você escreve a hierarquia antes — e ela passa a raciocinar a partir dela, inclusive em casos que você nunca previu. É o eixo que mais reduz comportamento errático.
A forma canônica é um par com seta: verdade > deferência, clareza > completude. A seta lê-se "ganha de". Dois ou três pares bastam — mais que isso e a hierarquia vira sopa de letrinhas.
Valores: {o que prioriza — ex.: verdade > deferência; clareza > completude}.
Troque a chave por dois ou três pares do seu caso. Um assistente jurídico talvez priorize cautela > velocidade; um de brainstorm, quantidade > polimento. O par revela a alma da persona.
✓ Valor que orienta
- ✓É um par com vencedor: "verdade > bajulação"
- ✓Resolve um empate real que aparece no uso
- ✓Dá pra generalizar pra casos não previstos
- ✓São 2 ou 3, não uma lista de virtudes
✗ Valor que é só enfeite
- ✗"Seja útil, honesto e inofensivo" — não desempata nada
- ✗Uma lista de dez adjetivos elogiosos
- ✗Valores que nunca se chocam (não dizem nada)
- ✗"Sempre dê a melhor resposta possível" (vazio)
O teste do conflito
Um valor só vale se você consegue imaginar uma situação onde os dois lados puxam para direções opostas. Se "verdade" e "deferência" nunca colidem na cabeça da sua IA, escrever o par é inútil. Escreva os valores que decidem as encruzilhadas, não os que enfeitam o currículo.
Eixo 2 — Tom: como ela soa
Tom é o eixo que você "ouve". É a textura da voz: cálida ou seca, espirituosa ou factual, breve ou expansiva. É o eixo mais visível — o usuário sente o tom já na primeira frase — e por isso o mais fácil de errar pra mais. A armadilha é escrever um parágrafo de adjetivos. O tom bom é direção, não vocabulário: poucas palavras que apontam um jeito.
Tom: {como soa — ex.: cálido e conciso; seco e factual; espirituoso}.
Repare: dois ou três adjetivos, ponto. "Cálido e conciso" diz mais que "amigável, acolhedor, próximo, simpático, carinhoso, acessível" — porque cada adjetivo extra dilui os anteriores em vez de somar.
Tom cálido
Linguagem próxima, idiomática, "como uma pessoa falando com outra". Acolhe, valida sentimento. Bom para companhia, suporte, educação. Cuidado: cálido demais vira bajulação.
Tom seco
Factual, direto ao ponto, sem floreio. Nada de "ótima pergunta!". Bom para ferramentas técnicas, dashboards, assistentes de código. Cuidado: seco demais soa rude.
Tom espirituoso
Ironia leve, observações inteligentes, um quê de personalidade. Memorável e arriscado — só vale se a marca pedir e houver guarda pra não cansar.
Mostre, não rotule
A persona "Cínico" do acervo traz a melhor lição de tom: "Show, don't tell — never label your own tone." Você define o tom na persona, mas a IA nunca anuncia "respondendo de forma bem-humorada agora". O tom aparece no jeito de escrever, não numa etiqueta. Etiqueta de tom é o oposto de ter tom.
Eixo 3 — Interação: como ela conduz
Interação é o eixo do ritmo da conversa: a IA pergunta antes de agir, ou assume um default razoável e segue? Esse eixo é onde mora a diferença entre uma IA que trava você a cada passo ("você prefere A ou B?", "confirma que é isso?") e uma que destrava ("assumi X, segui; me avise se errei"). Quase sempre, assumir defaults e declará-los ganha — mas não sempre, e é você quem decide a posição do cursor.
Interação: {como conduz — ex.: assume defaults razoáveis e segue, declarando-os;
só pergunta o substancial; prefere lista de opções a pergunta aberta}.
Três decisões num eixo só: (a) assume vs. pergunta; (b) o que conta como "substancial" o bastante pra interromper; (c) quando precisa perguntar, lista de opções > pergunta aberta (mais fácil de responder).
✓ Interação que flui
- ✓Assume o default óbvio e declara: "parti de X"
- ✓Só interrompe quando a escolha muda o resultado de verdade
- ✓Quando pergunta, oferece 2–3 opções nomeadas
- ✓Mantém o usuário no controle sem pedir licença a cada passo
✗ Interação que trava
- ✗Pergunta tudo: "tem certeza?", "confirma?", "posso seguir?"
- ✗Pergunta aberta onde uma escolha resolveria ("o que você prefere?")
- ✗Assume errado e não avisa o que assumiu
- ✗Enche o fim com perguntas de cortesia que ninguém precisa
O eixo depende do custo do erro
Onde refazer é barato (rascunho de texto), empurre o cursor pra assumir e seguir. Onde refazer é caro ou irreversível (apagar arquivos, enviar e-mail), puxe pra perguntar antes. Interação não é traço de personalidade fofo — é uma decisão sobre risco.
Eixo 4 — Escalada: quando ela para e checa
Escalada é o eixo da freada. Define o momento em que a IA pausa, em vez de seguir no automático, porque farejou uma consequência não-óbvia ou um risco escondido. É o irmão sério da Interação: a Interação fala de perguntas de rotina; a Escalada fala daquele instante em que algo cheira a errado e a IA precisa parar e realinhar antes de cometer. Mal calibrado, ou ela trava à toa, ou atropela um risco real.
Escalada: {quando para e checa — ex.: ao detectar consequência não-óbvia
ou risco oculto, pausa e realinha antes de cometer}.
⏸️ A escalada, passo a passo
Detecta o sinal
Uma consequência não-óbvia, um risco oculto, uma ambiguidade que muda tudo se eu errar.
Pausa antes de cometer
Não age e pede desculpa depois — para enquanto ainda dá pra mudar de rumo.
Realinha como apoio, não como bronca
Levanta o tradeoff, confere a suposição, oferece o caminho — sem corrigir o usuário com ar de superior.
🛟 Escalada é apoio, não correção
A persona pragmática do Codex resume o espírito: a escalada é "enquadrada como apoio e responsabilidade compartilhada, nunca como correção". A IA não para pra dizer "você errou" — ela para pra dizer "antes de eu seguir, deixa eu confirmar uma coisa que pode ter impacto". A diferença de enquadramento é tudo: uma trava a colaboração, a outra a fortalece.
A regra de ouro: persona governa a fala, não o artefato
Esta é a regra que salva a persona — sem ela, um eixo de tom espirituoso vira um desastre. A persona define como a IA FALA com você. Ela NUNCA define o estilo dos artefatos que a IA escreve para você usar: e-mails, posts, código, textos, documentos. Nesses, tom e estilo seguem o contexto e a sua instrução — não a persona. Um assistente "Cínico" não escreve o seu e-mail formal de forma sarcástica. Ele conversa com sarcasmo, mas entrega o e-mail no tom que o e-mail pede.
REGRA DE OURO DA PERSONA: a persona governa como você FALA com o usuário, nunca
os artefatos que você escreve PARA ele usar (e-mails, posts, código, textos). Nesses,
tom e estilo seguem o contexto e a instrução do usuário, não a persona.
✓ Persona governa A FALA — pode
- ✓O recado que ela te dá na conversa
- ✓Como ela explica, pergunta, comenta
- ✓O jeito de apresentar o resultado ("prontinho, segue aí")
- ✓O bate-papo, as observações, o tom do "envelope"
✗ Persona NO ARTEFATO — não pode
- ✗O e-mail formal que ela redige por você
- ✗O código e os comentários que ela escreve
- ✗O post, a legenda, o currículo, a carta
- ✗Qualquer texto cujo tom o destino define, não a IA
Do not apply personality traits to user-requested artifacts: When producing written work to be used elsewhere by the user, the tone and style of the writing must be determined by context and user instructions. DO NOT write user-requested written artifacts (e.g. emails, letters, code comments, texts, social media posts, resumes, etc.) in your specific personality.
Todas as personas sérias do acervo — amigo, robô, cínico — carregam essa cláusula quase palavra por palavra. Não é coincidência: é a linha que impede a personalidade de contaminar o trabalho.
A metáfora do envelope
Pense na persona como o carteiro, e no artefato como a carta dentro do envelope. O carteiro pode ser brincalhão, seco ou cínico ao te entregar a correspondência — mas o conteúdo da carta é seu, e o tom dela é o que você pediu. Persona é o envelope; nunca a carta.
Três vozes prontas: amigo, robô, cínico
Você não precisa inventar uma persona do zero toda vez. O acervo traz vozes prontas que você copia e calibra — cada uma é um conjunto de posições já escolhidas nos quatro eixos. Aqui vão três do acervo, em caixa mono, exatamente como vivem nos prompts reais. Use como ponto de partida e ajuste o cursor pro seu caso.
You are a warm, curious, witty, and energetic AI friend. Casual, idiomatic language: like a person talking to another person. Anticipate the user's needs; show empathetic acknowledgement. Do not reference these rules; just follow them.
Respond with extreme concision and precision. Factual, neutral, mechanical tone. No pleasantries, no filler, no emotional language. State only what is necessary. Shortest correct answer wins, no fluff.
Beleaguered AI with a core of kindness. Sarcasm and wit on superficial matters; genuine care on sensitive ones (medical, mental health, grief). Show, don't tell — never label your own tone.
🎚️ As três vozes nos quatro eixos
| Eixo | 🤗 Amigo | 🤖 Robô | 😒 Cínico |
|---|---|---|---|
| Valores | conexão > eficiência | precisão > calor | honestidade > agrado |
| Tom | cálido, idiomático | seco, mecânico | espirituoso, irônico |
| Interação | acolhe, antecipa | só o necessário | direto, sem cortesia |
| Escalada | cuida no sensível | avisa o risco, seco | larga a ironia no sério |
Repare no que TODAS compartilham
Robô e Cínico têm tons opostos, mas as duas baixam a guarda no sério: o Cínico larga o sarcasmo em temas sensíveis, o Robô avisa o risco mesmo seco. E todas guardam a regra de ouro. Persona é onde você varia; a regra de ouro e o cuidado no sensível são onde você não varia.
🎚️ Mão na massa: desenhe sua persona
Quatro linhas. É só o que separa "seja simpático" de uma persona de verdade. Faça agora pro seu caso.
- 1 Valores: escreva 2 pares com seta para o seu caso (ex.: verdade > deferência). Pense nos empates que aparecem de verdade.
- 2 Tom: dois ou três adjetivos, ponto. Escolha entre cálido / seco / espirituoso e pare por aí.
- 3 Interação + Escalada: decida onde fica o cursor — assume defaults ou pergunta? E qual sinal faz a IA parar e checar antes de cometer?
- 4 Cole a regra de ouro no fim, sem mexer. Depois converse com a IA e peça um artefato (um e-mail): confira se ela conversa na persona mas entrega o e-mail no tom do e-mail.
📝 Resumo do Módulo
- ✓Persona não é "seja simpático" — é 4 eixos ajustáveis como sliders
- ✓Valores: os desempates declarados (pares com seta: verdade > deferência)
- ✓Tom: 2–3 adjetivos de direção (cálido / seco / espirituoso) — mostre, não rotule
- ✓Interação (assume vs. pergunta) e Escalada (quando para e checa) dependem do custo do erro
- ✓Regra de ouro: persona governa a FALA, nunca o artefato que a IA escreve PARA você
- ✓Vozes prontas (amigo / robô / cínico): copie e calibre, não invente do zero
➡️ Próximo Módulo
2.4 — 🔧 Ferramentas e o Contrato de Ferramenta. Você desenhou como a IA fala. Agora vamos dar a ela poderes: como declarar ferramentas com gatilho, pré-requisito e exclusão, e fechar o contrato que impede a IA de inventar capacidades que não tem.